quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Fake News


A notícia nacional: Autarquias gastaram menos em atividades culturais em 2016.

Qualquer semelhança com a realidade, e por aquilo que se entende por "actividades culturais", é pura ilusão!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Orgulho (a quanto obrigas)

A Açoreana/Tranquilidade e o jornal Expresso realizaram, esta semana, em Ponta Delgada, um debate sobre os desafios e as oportunidades que se colocam ao Turismo dos Açores.

O painel foi moderado por João Vieira Pereira, diretor-adjunto do Expresso, e teve como convidados Filipe Macedo, director regional do Turismo dos Açores; Isabel Barata, vogal executiva da SATA; Jan de Pooter, CEO da Tranquilidade/Açoreana; João Welsh, administrador do grupo CBK; e Miguel Muñoz Duarte, professor da Nova School of Business.

O arquipélago está no centro de todas as atenções, sobretudo, devido ao fenómeno, recente, do crescimento turístico.

Este tipo de discussões são bem-vindas e gosto, particularmente, de observar a forma como são recebidas entre portas, oscilando entre o entusiasmo incontido e a desconfiança, na medida em que há quem não concorde (e aceite) que outros falem de nós.

Mais do que qualquer avaliação da prestação (de quem olha de fora para dentro), considero fundamental a prossecução deste tipo de iniciativas, como impulso à reflexão, que se impõe, sobre a realidade que nos rodeia. Esta tem sido uma incapacidade endógena. A resposta não pode ser reactiva. Importa, primeiro, conhecer e aprofundar os nossos pontos fortes e as nossas fraquezas. Temos, inclusive, uma dificuldade em rir de nós próprios, sendo que já me disseram que, por cá, não há espaço para ironia. Sintomático?

Deste painel, retive várias leituras mas sublinhei o que disse João Welsh, madeirense, quando referiu a importância estratégica que a SATA/Azores Airlines tem para os Açores. Já não é a primeira vez que uma individualidade do “arquipélago irmão” realça esta questão, reveladora de alguma mágoa, o facto de não deterem este capital - uma companhia aérea regional. E o que dizem (e têm dito) os açorianos a este respeito?

O orgulho açoriano é passivo/reactivo, em particular, e quase sempre, devido uma crítica proferida por uma entidade externa. Contudo, somos filhos pródigos em depreciar muito do que temos, estabelecendo comparativos irrealistas e procurando culpar, não raras vezes, os outros, por algo que (só) depende de nós.

Para ilustrar o que aqui escrevo, e a título superlativo, quando estamos num restaurante na Madeira e pedimos uma cerveja, quais as opções que nos apresentam? Uma, a cerveja regional. E se pedirmos outra marca? O empregado faz por insistir (orgulhosamente) nos adjectivos qualitativos, até que nos convença que é a melhor cerveja do mundo. E por cá? A marca regional já nem sequer é opção na maior parte dos locais, sendo que passou a ser uma epopeia beber, nos Açores, uma Melo Abreu. Simbólico?

Antes dos outros, temos de ser nós a valorizar, a promover e a consumir o que produzimos.

Isto já para não falar da “dinâmica” do mercado interno, no qual todas as ilhas querem “exportar” para São Miguel mas em que a presença dos produtos da ilha verde em determinadas ilhas, é o que sabemos. Assim, não vamos lá, enquanto se mantiver o bairrismo ilhéu, em que cada ilha copia a do lado, como revindicação de um (falacioso) desenvolvimento harmonioso.

Transpondo esta leitura para o período consumista que se avizinha, existe um factor que, na minha opinião, tem sido profusamente negligenciado: a saída exponencial de recursos da região, com um impacto económico significativo no tecido empresarial local. Se é verdade que temos mais visitantes, e que há sectores da economia que estão a beneficiar com isto (hotelaria, restauração e aluguer de automóveis, por exemplo), noutros sectores, reféns dos gastos de quem cá habita, estamos a assistir a uma transferência desse consumo para o exterior, consubstanciado por viagens mais frequentes e pelo incremento das compras online. Seria interessante analisar estes dados. Alguém?

E aqui, será difícil empurrar a(s) culpa(s) para o Governo. E daí, talvez não, dirão os mesmos, já que este ousou aumentar o rendimento disponível das famílias.

O orgulho por aquilo que é “nosso”, também, se (des)materializa, por (in)acções como esta(s).

* Publicado na edição de 04/12/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Oportunidade

Os Açores continuam a bater recordes de passageiros (nos aeroportos), turistas e estadias.

Os investimentos (privados) multiplicam-se e animam a economia, sendo certo que, muitos deles, representam uma fuga em frente, agindo ao sabor do rebanho. Os melhores prevalecerão.

A resposta aos novos desafios não pode significar mais do mesmo, ou a mera replicação de modelos (desajustados) à nossa identidade e geografia. Do mesmo modo, que não é possível responder qualitativamente às exigências do consumidor contemporâneo através das nossas referências pessoais.

Não podemos descurar este ponto. Temos de saber ler o outro, estudar o perfil de quem nos visita e perceber o que procura.

E, sobretudo, não cair na tentação de ficcionar o destino Açores, promovendo uma coisa que ele não é.

Partilho um exemplo, destes dias, para aqui demonstrar o que quero dizer. Um empresário, detentor de um alojamento de turismo rural, foi acometido pelo desabafo de um casal de turistas nórdicos que considerava que a ilha (em que estavam) apresentava uma paisagem muito humanizada, contrária às imagens promocionais a que tinham tido acesso. Procuravam um território menos habitado, e menos construído, para fugir à azáfama de um grande centro. Perante este facto, decorrido numa das maiores ilhas do arquipélago, acabaram por rumar ao grupo central, na esperança de encontrar o arquipélago intocado que lhes tinha sido vendido.

Nada como algo totalmente inesperado para fazer alterar (e reponderar) as nossas convicções (absolutas). Este episódio é apenas mais um, dos muitos que todos temos e partilhamos entre amigos.

A ideia de desenvolvimento que preconizamos será compaginável com o destino turístico que afirmamos ter (e queremos ser)?

Parece-me que o conflito de interesses é, neste capítulo, uma evidência. Ignorá-lo, poderá determinar um conjunto de consequências imprevisíveis no desenvolvimento que preconizamos.

Neste sentido, o investimento reprodutivo deu, hoje, lugar a um novo jargão em torno da ideia de sustentabilidade.

No essencial, e conceptualmente, estamos todos de acordo quanto à necessidade de aplicar nos Açores, um espaço geográfico circunscrito, um conjunto de boas práticas quanto à gestão do território, dos recursos e dos resíduos.

Contudo, a sua aplicação prática revela-se bem mais difícil de operacionalizar, esbarrando num conjunto indeterminado de regulamentação, de inoperância e de falta de liderança (nos projectos).

Apesar da nossa exiguidade territorial (e populacional), a plêiade de entidades que gerem o nosso pacato modo de vida fazem-nos colidir, invariavelmente, com uma muralha burocrática (dita simplificada) em rede.

Agimos digitalmente (ainda) através do ditame do papel timbrado, passando da fotocópia ao PDF. O expediente parece fluir mas o carácter é, extremamente, ilusório.

No devir da hiperbolização mediática, em que o gosto/(des)gosto - e a partilha viral ditam a abertura do noticiário e do telejornal, parece existir menos tempo para a reflexão ponderada e a sensatez dos actos de gestão (e de governação).

Após o tempo eleitoral, parece tudo continuar como dantes. A inconsequência não exige responsabilidade e a impunidade reina ao sabor da indiferença generalizada (com a oportuna ajuda da imprensa apaniguada).

O momento actual representa uma oportunidade para a sustentabilidade (social e económica) dos Açores, um lugar “identitário, relacional e histórico”, não façamos deste local um “não-lugar” (Marc Augé, 2012).

* Publicado na edição de 20/11/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Antero Hoje (e Amanhã?)

Os 175 anos do nascimento de Antero de Quental foram motivo para a realização das jornadas “Antero Hoje”, que decorreram na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, numa organização conjunta do Governo dos Açores e da Fundação Calouste Gulbenkian, para evocação da memória do poeta que Eduardo Lourenço (um dos oradores convidados) nomeia como exemplar único da nossa literatura, excedendo Camões, e com uma obra “naturalmente universal” (Açoriano Oriental, 09/11/17).

A exaltação da obra de Antero é motivo de um orgulho (in)contido, na medida em que as palavras não acompanham a(s) prática(s). O paradoxo está instalado no meio de nós.

Nunca entendi a razão pela qual, na sua terra de origem, a manifestação cultural da sua obra é feita com alguma parcimónia, ensombrada, talvez, por um pudor, sem sentido, em torno da forma como morreu.

Mais do que apenas o estudo da obra e do homem, é necessário que o conhecimento ultrapasse os muros da academia e contamine, sem rodeios, o território e a comunidade que nos rodeia.

Com isto não estou a dizer que devamos dessacralizar a sua obra, temos, sim, de encontrar formas de fazer chegar Antero aos dias de hoje, por intermédio de outras linguagens artísticas, utilizando, paralelamente, as novas plataformas digitais para chegar ao público de hoje (e de amanhã).

A simbiose estabelecida entre Lisboa e Fernando Pessoa é apenas um bom exemplo para o que deve ser realizado entre nós. Um e o outro são sinónimos, a reciprocidade beneficia todos. E porque, já, não o fizemos em Ponta Delgada?

Porque razão não se avançou, há mais tempo, com um espaço de promoção da sua memória? Qual o impedimento na identificação e dinamização do roteiro concebido pela Direcção Regional da Cultura (sob a orientação do Professor Fagundes Duarte)? Porque é que não existe um prémio literário com o seu nome?

Por desleixo, desinteresse ou, simples, ignorância?

Considero que ainda vamos a tempo de ultrapassar todas estas insuficiências, sendo que a oportunidade gerada por estas jornadas, e pela importante parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, deve servir de catalisador a futuras iniciativas, ou mesmo, na criação de um evento literário com carácter anual que posicione a cidade, e os Açores, no mapa das letras do país (e do mundo).

Tempo (ainda) para (+) uma polémica
Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, já pediu desculpa ao país pela realização de um jantar no Panteão Nacional, em Lisboa, onde juntou vários empresários e investidores no último dia da cimeira de tecnologia.

Está instalada a mais recente “polémica pop up” (André Bradford), instigada por uma nação que procura nos escombros da memória, o alimento para a tragédia seguinte.

Polémica à parte, o que esta questão revela, como referiram, e bem, o BE e o PCP, é a precariedade dos orçamentos associados à gestão do património e à política cultural.

Caso os orçamentos fossem compatíveis com a responsabilidade que o estado tem, e assume, este(s) caso(s) não seria(m) notícia.

A hipocrisia também andam em alta, na medida em que o que antes era entendido como “boa gestão”, hoje representa a indignação colectiva ao sabor do populismo viral.

A falta de orçamento para a Cultura, não pode tudo justificar, sendo que obtenção de receitas deve cumprir com limites e “o respeito pela dignidade dos espaços e pela sua preservação” (António Filipe, 12/11/17).

Sublinho.

* Publicado na edição de 13/11/17 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Valores (renovados)

Por vicissitude familiar, percorro, semana após semana, os múltiplos campos de futebol (sintéticos) disseminados pela ilha.

Um conjunto significativo de clubes possui, e bem, uma escola de formação, por forma a contribuir para a sustentabilidade futura da instituição. E para, acredito, contribuir para a aquisição de hábitos de vida saudáveis através da prática desportiva (dos escalões mais jovens).

Se por um lado é verdade que os princípios basilares estão lá, quando chegados à competição acabamos por não encontrar estes jovens a jogar na equipa principal.

Estes dão lugar a um conjunto indiferenciado de interesses que chocam com o que é, sistematicamente, apregoado. Nesta lógica de capitalização cega, perpassa a fidelidade à região (e ao que é ‘nosso’), sendo que na prática não é isto que acontece, onde os plantéis das equipas apresentam, na sua maioria, um conjunto importado (e de pouco valor acrescentado). E porquê?

Mais do que o agitar da bandeira (e o exacerbar do nacionalismo endémico), será mais prudente, e relevante, investir na formação desportiva, por forma a garantir a continuidade da prática desportiva através do cultivo de uma fileira de recursos endógenos. Só aqui é que poderá existir uma ideia de sustentabilidade (futura).

Esta é uma questão transversal às diversas modalidades e não apenas um exclusivo do universo associado ao futebol, o qual terá, porventura, no arquipélago, maior expressão.

Considero que a região deve analisar, se é que já não o faz, os critérios de seriação e os objectivos inerentes à participação desportiva das equipas açorianas, nos inúmeros campeonatos nacionais, nomeadamente, com o cumprimento de regras, por exemplo, quanto ao número de praticantes residentes no arquipélago presentes nas equipas em disputa.

Que sentido é que faz que um clube açoriano, a participar num campeonato nacional, não tenha nos seus quadros um jogador oriundo dos Açores? Se assim é, qual a pertinência do investimento em formação nos escalões juvenis? Ou ela apenas preenche uma formalidade no acesso aos apoios oficiais?
Estas são apenas algumas questões com as quais me tenho deparado nos últimos anos, sem que haja uma real evolução quantos aos objectivos elencados a cada temporada que passa.

Eles existem, é certo. Mas ficam-se pela subida (de divisão) e pelo aumento dos recursos financeiros.

A importância do desporto na formação dos jovens, numa cada vez mais acentuada necessidade de gerar estilos de vida saudáveis, numa região com propensão para dependências, é algo incontornável.

Contudo, devemos olhar, igualmente, para o que passa dentro e fora do campo.

Isto porque, por um lado, chamamos a atenção dos mais novos para a criação de uma boa conduta desportiva, alicerçada no respeito mútuo, na convivialidade e na disputa salutar. Por outro, assistimos, fora das quatro linhas, a um paradoxo protagonizado por algumas entidades parentais que olham para os filhos como um projecto de rentabilidade futura, inebriados pelas luzes da ribalta mediática, vociferando valores dissonantes aos que são incutidos nos jovens desportistas.

Importa projectar para as novas gerações, valores renovados. E que estão para além do mero valor mercantil (e do sucesso fugaz) associado à prática desportiva. Nada disto se constrói pela lei do mais forte (ou do que grita mais alto).

A Educação e a Cultura, também, fazem parte desta equação.

É bom que não nos esqueçamos disto.

* Publicado na edição de 06/11/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sentido de responsabilidade

O fogo do país real rebentou com a bolha de uma nação refugiada no litoral, em torno dos grandes centros urbanos e que se esquece(u) do interior profundo (e da periferia das ilhas).

A aldeia arde todos os anos - já todos sabemos - mas este foi um ano atípico, em que os incêndios foram mais que muitos e, para infortúnio nacional, o número de mortos ascendeu à centena.

Acordamos, incrédulos, para uma realidade que sabemos, remotamente, existir. Contudo, nesta situação, a distância da tragédia foi suprimida pelo ‘prime time’ noticioso, o qual encheu de indignação a ‘timeline’ do livro que todos aparentam ler.

Independentemente das falhas do sistema nacional de protecção civil, e do desacerto da acção política na gestão dos acontecimentos, é justo reconhecer, sem parecer descabido, que estamos perante uma situação anómala, na qual a meteorologia desempenhou um importante papel.

Do governo aos autarcas, ninguém tem dúvidas: há mão criminosa nos fogos. Não será tempo de encarar seriamente esta questão, alterando a moldura penal dos incêndios com origem criminosa? Neste sentido, e para além da vontade governativa, existe (desde Agosto) uma petição online que conta com cerca de 60.000 assinaturas, reunindo as condições para que seja discutida no parlamento nacional.

Simultaneamente, e paradoxalmente, para quem assiste na serenidade do arquipélago a esta tragédia, sem paralelo entre nós, é incrível que Outubro, ainda, nos propicie um banho de mar. Mas não deixo de me questionar sobre este facto, agradável, sem dúvida, mas o resultado de um mundo em mudança, cujos impactos são difíceis de medir e que se fazem sentir, sobretudo, através de fenómenos meteorológicos extremos, num país de contrastes e que se encontra, actualmente, num acentuado processo de erosão e desertificação (física e humana).

Apesar do aparente relativismo da nossa posição geográfica, os Açores não estão imunes a este estado de coisas, sendo que esta localização nos torna, porventura, mais vulneráveis aos efeitos negativos das alterações climáticas.

Por forma a antecipar o impacto que estas irão ter no nosso modo de vida, foi criado um grupo de trabalho multissectorial para elaborar uma proposta do Plano Regional para as Alterações Climáticas (PRAC), assumida como “uma ferramenta fundamental para o planeamento e intervenção ao nível do território, no que respeita à mitigação das emissões e às necessidades de adaptação às mudanças climáticas” (GaCS, 25/01/17).

O resultado deste exercício de sistematização está disponível para consulta pública até 15 de novembro de 2017.

Era bom que deixássemos o like de ocasião no conforto do sofá e que contribuíssemos, efectivamente, para uma mudança de comportamentos que a todos dizem respeito.

Este tipo de atitudes implicam compromisso, rigor e múltiplas cedências.

Será que estamos disponíveis para as assumir?

Noutras dimensões, a nossa reduzida expressão pode ser um problema, neste caso, é uma vantagem, na medida em que temos todas as condições para ser uma região exemplar na apli(ação) de boas práticas ambientais.

Saibamos fazê-lo, agindo em conformidade e com sentido de responsabilidade.

* Publicado na edição de 23/10/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

(In)ventos

A história repete-se. O número de festas populares e religiosas no arquipélago multiplica-se e sobrepõe-se, a cada ano que passa, sem que nada, nem ninguém pareça muito incomodado com a ocorrência.

O que é ainda tradição, identidade e memória deu lugar ao que hoje, num acto de modernidade provinciana, se designa por Festival (e outras designações equiparadas).

O ano eleitoral autárquico, apenas, veio conferir uma áurea, ainda, mais difusa à balbúrdia instalada.

Nada disto acontece por livre e espontânea vontade, existe, por regra, um apoio público que viabiliza o investimento privado.

O que parece não existir, para além de uma total ausência de critérios e objectivos programáticos em torno de uma pretensa agenda de animação turística, para a totalidade do território arquipelágico, é a responsabilidade de quem promove estes supostos (in)ventos sob a égide da promoção do destino (Açores).

Actualmente, a profusão de entidades promotoras é absurda, e já perdi a conta ao número de associações, cooperativas, e restantes organizações, que concorrem aos apoios disponíveis.

Se há uma ilação a retirar da crónica destes “anos de chumbo” (Eduardo Paz Ferreira), é a de que os recursos são escassos e devem ser utilizados com enorme parcimónia.

Os últimos meses provaram o seu contrário.

Que sentido é que faz apostar na divulgação de iniciativas concentradas em três meses do ano, num período que já se encontra vendido e que já não tem capacidade de resposta à solicitação presente?

Os problemas estão amplamente diagnosticados mas tarda em chegar uma resposta consentânea para um conjunto de questões prementes.

Embora se considere que a sazonalidade já não é o que era, o facto é que ela não desapareceu e é, porventura, por estes dias e nos que se avizinham, ainda mais vincada perante o aumento exponencial da oferta (de serviços).

Daí que considere fundamental (tal como foi, e bem, anunciado pelo Governo Regional) que se introduzam critérios rigorosos na atribuição de apoios públicos para iniciativas que tenham um retorno, real e efectivo, para os Açores. E que não estejam assentes num cálculo especulativo de visibilidade mediática, em meios que não têm a repercussão adequada às características do destino, nem são compagináveis com o perfil do turista que procura e visita estas ilhas.

O pior que nos poderá acontecer é cairmos na tentação de promover uma amálgama de animação indiferenciada (e desqualificada), sem qualquer valor acrescentado, mascarada pela partilha (promovida) nas redes sociais.

A mantermos o nível da oferta a que assistimos este verão, o risco está bem mais próximo do que possamos imaginar.

Do mesmo modo, continuaremos a ter uma escassez de recursos para o funcionamento de instituições e instalações basilares à prossecução de actividades culturais/ambientais. Assim como, para a materialização de iniciativas fundamentais à qualificação presente e futura das comunidades locais.

Este é o tempo de afirmamos, de uma vez por todas, o que queremos para o desenvolvimento da animação turística e da própria actividade turística nos Açores.

É altura de agir, deixemo-nos de (in)ventos sem sentido, nem expressão.

* Publicado na edição de 16/10/17 do Açoriano Oriental
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