segunda-feira, 23 de outubro de 2017

(In)ventos

A história repete-se. O número de festas populares e religiosas no arquipélago multiplica-se e sobrepõe-se, a cada ano que passa, sem que nada, nem ninguém pareça muito incomodado com a ocorrência.

O que é ainda tradição, identidade e memória deu lugar ao que hoje, num acto de modernidade provinciana, se designa por Festival (e outras designações equiparadas).

O ano eleitoral autárquico, apenas, veio conferir uma áurea, ainda, mais difusa à balbúrdia instalada.

Nada disto acontece por livre e espontânea vontade, existe, por regra, um apoio público que viabiliza o investimento privado.

O que parece não existir, para além de uma total ausência de critérios e objectivos programáticos em torno de uma pretensa agenda de animação turística, para a totalidade do território arquipelágico, é a responsabilidade de quem promove estes supostos (in)ventos sob a égide da promoção do destino (Açores).

Actualmente, a profusão de entidades promotoras é absurda, e já perdi a conta ao número de associações, cooperativas, e restantes organizações, que concorrem aos apoios disponíveis.

Se há uma ilação a retirar da crónica destes “anos de chumbo” (Eduardo Paz Ferreira), é a de que os recursos são escassos e devem ser utilizados com enorme parcimónia.

Os últimos meses provaram o seu contrário.

Que sentido é que faz apostar na divulgação de iniciativas concentradas em três meses do ano, num período que já se encontra vendido e que já não tem capacidade de resposta à solicitação presente?

Os problemas estão amplamente diagnosticados mas tarda em chegar uma resposta consentânea para um conjunto de questões prementes.

Embora se considere que a sazonalidade já não é o que era, o facto é que ela não desapareceu e é, porventura, por estes dias e nos que se avizinham, ainda mais vincada perante o aumento exponencial da oferta (de serviços).

Daí que considere fundamental (tal como foi, e bem, anunciado pelo Governo Regional) que se introduzam critérios rigorosos na atribuição de apoios públicos para iniciativas que tenham um retorno, real e efectivo, para os Açores. E que não estejam assentes num cálculo especulativo de visibilidade mediática, em meios que não têm a repercussão adequada às características do destino, nem são compagináveis com o perfil do turista que procura e visita estas ilhas.

O pior que nos poderá acontecer é cairmos na tentação de promover uma amálgama de animação indiferenciada (e desqualificada), sem qualquer valor acrescentado, mascarada pela partilha (promovida) nas redes sociais.

A mantermos o nível da oferta a que assistimos este verão, o risco está bem mais próximo do que possamos imaginar.

Do mesmo modo, continuaremos a ter uma escassez de recursos para o funcionamento de instituições e instalações basilares à prossecução de actividades culturais/ambientais. Assim como, para a materialização de iniciativas fundamentais à qualificação presente e futura das comunidades locais.

Este é o tempo de afirmamos, de uma vez por todas, o que queremos para o desenvolvimento da animação turística e da própria actividade turística nos Açores.

É altura de agir, deixemo-nos de (in)ventos sem sentido, nem expressão.

* Publicado na edição de 16/10/17 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mudar para melhor

A abertura de uma rota directa entre Nova Iorque e os Açores é uma notícia sem precedentes e a confirmação da notoriedade obtida pelo arquipélago, ao longo da estratégia delineada nos últimos anos, consubstanciada pelo turismo de natureza e pela sustentabilidade ambiental.

Complementarmente, a abertura do espaço aéreo da região terá originado um efeito de contágio associado à sua localização geoestratégica, a meio caminho entre a europa e o continente norte-americano, a uma distância relativamente próxima (curta) deste mercado turístico.

Parte deste sucesso deriva, igualmente, da instabilidade política mundial, dos recentes desastres naturais nas Caraíbas e ao contínuo devir turístico contemporâneo, na procura incessante por lugares remotos, intocados e, paradoxalmente, como refere recentemente a Airbnb, num vídeo promocional aos Açores, por destinos “Not Yet Trending”. Realço o Yet, porque a intenção é torná-lo, a breve trecho, Not.

Estes são sinais evidentes da reformulação do turismo à escala mundial, num processo dinâmico e em curso, no qual passamos de (ilustres) desconhecidos a (notáveis) emergentes.

Apesar de existir uma consciência, entre nós, dos particularismos deste fenómeno, o mesmo acarreta, sem margem para grandes dúvidas, uma responsabilidade acrescida, na medida em que não nos podemos deixar cair num processo de “Disneylização”.

Para tal, temos de implementar (ontem, já era tarde) um sem número de opções para melhor responder a estes fluxos, cada vez menos sazonais e com um carácter mais permanente (e intenso). Contudo, receio que, este fenómeno, já está para além de qualquer controle ou delimitação.

Em parte, porque estamos a sair de uma crise económica, com efeitos mais ou menos visíveis, e que tem no crescimento da actividade turística, um dos aspectos mais evidentes da nova dinâmica presente na economia regional.

Ninguém o ignora, e perante o cepticismo inicial, assistimos a um movimento de sentido único, em que tudo converge - numa espiral acéfala - para o turismo. No passado recente, já testemunhamos os efeitos da concentração do investimento (colectivo) num único sector económico, com os resultados que se conhecem.

Outro aspecto - amplamente discutido mas imensamente ignorado - é a qualidade da oferta dos serviços que prestamos a quem nos visita. A qualidade do destino não está em causa. Contudo, o perfil de cliente a bordo da Delta Airlines não se compadece com uma parte significativa do que temos para oferecer, não só em termos de restauração mas em todos os serviços complementares, incluindo, o alojamento e animação. A exigência e a disponibilidade terá de ser, forçosamente, outra.

A este respeito, socorro-me de um exemplo corriqueiro, em tempo de eleições autárquicas, para demonstrar o muito que há por fazer (e que não foi feito, nem foi acautelado).

Para o candidato que pretende renovar o mandato à frente dos destinos daquele que considera ser: “o motor de desenvolvimento dos Açores, a porta de entrada do turismo, o novo pilar de desenvolvimento do concelho, da ilha de São Miguel e do arquipélago”, não existe espaço na agenda cultural do município para os eventos, e para as instituições, que não fazem parte do perímetro municipal.

Alguém imagina, por exemplo, que um turista ao chegar a Lisboa não tenha acesso à informação cultural relativa ao Centro Cultural de Belém, ao Museu de Arte Antiga ou à Fundação Gulbenkian?

Em Ponta Delgada, nos últimos quatro anos, foi o que aconteceu. Será esta postura compaginável com um discurso aparentemente conciliatório?

A par de outras medidas fundamentais, importa implementar “uma agenda cultural anual que agregue toda a informação da oferta disponível no concelho e que não promova apenas os eventos municipais.

Os desafios deste tempo (e dos que se adivinham) não são solúveis com estados de alma, requerem determinação e um projecto afirmativo para a cidade e para o concelho.

Ponta Delgada, como um todo, merece mudar para melhor.

* Publicado na edição de 25/09/17 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 26 de setembro de 2017

Ontem, já era tarde

Em determinados períodos da sua história, os Açores foram, e têm sido, precursores em múltiplos domínios.

Não é necessário enumerá-lo mas os atributos identitários, pelos quais o arquipélago é, actualmente, (re)conhecido, são fruto da visão de alguns (poucos) homens bons -“que lutaram pela luz e o progresso” (Arturo Pérez-Reverte, 2016).

Ninguém ignora, ou contraria, que as plantações de Chá, a produção de Ananás ou o Parque Terra Nostra, são exemplos maiores daquilo que melhor caracteriza e diferencia esta(s) ilha(s), num tempo em que proclamamos a sustentabilidade como a riqueza turística dos Açores.

Estes recursos (permitam-me que os defina deste modo) são lidos como símbolos identitários (e distintivos) perante a homogeneização do gosto e da democratização do turismo (com ou sem massificação, seja ela qual for).

Questiono-me, frequentemente, do porquê de tais concretizações: como é que foram possíveis e como é que chegaram até aos nossos dias? E se haverá, entre nós, a capacidade de dar corpo a ideias ou a projectos equivalentes?

A sua idealização foi realizada num período em que as dificuldades económicas eram mais que muitas, na ruína de um ciclo económico grandioso, após o qual foi necessário encontrar alternativas produtivas para colmatar o declínio em que a economia da(s) ilha(s) se encontrava.

Nessa altura não existiam fundos comunitários, nem apoios à exportação, pelo que o engenho e a verdadeira capacidade empreendedora (palavra perigosa nos tempos que correm) foram factores determinantes para alavancar algumas destas produções (que são hoje marca da nossa contemporaneidade).

Estes são, mais do que a sua mera produção, exemplos de resiliência e de visão, num espaço geográfico pequeno e longínquo, com recurso a uma população rural, pouco escolarizada mas que teve a sorte de poder contar com o investimento de alguns “homens bons”, na capacitação da sua comunidade e da luta pelo bem comum.

A (quase) inexistência de um projecto partilhado faz com que a escassez de meios (ao nosso dispor) seja, ainda, mais insuficiente e torne evidente a sagacidade empresarial e os egos daqueles que agora se preparam para ir a eleições.

Este estado de coisas tem levado à desertificação do campo em detrimento da cidade, à competição insana entre concelhos, da mesma ilha, e entre as ilhas, num desgaste sem sentido.

Contudo, os bons exemplos perduram ao tempo e à história.

A explicação para a longevidade de tais símbolos emana da necessidade, do querer e, sobretudo, do saber de quem olha o mundo e o (re)conhece. Procurando um ponto de convergência com a sua origem geográfica, através da partilha da sua riqueza (e da sua cultura) com os seus conterrâneos.

Parte do nosso problema colectivo é cultural. Sem conhecimento - e sem educação - num mundo globalizado não alcançaremos grande coisa.

A produção de bens em grande escala é uma ilusão, temos de saber competir pela qualidade e nunca pela quantidade (daquilo que a natureza nos proporciona e do que aqui produzimos).

A geotermia, a água que nos rodeia e a pequenez das ilhas = o laboratório vivo que constituímos são, porventura, as nossas maiores riquezas.

Saibamos aproveitar este bom momento económico para implementar boas práticas e um modelo de efectiva sustentabilidade futura, garantindo uma visão de futuro e rejeitando modelos do passado.

Citando Antero de Quental (nas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares), “se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva?”.

Ontem, já era tarde.

* Publicado na edição de 18/09/17 do AO
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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Confiança, excesso (ou a falta dela)

Os cartazes já por aí andam, de rotunda em rotunda, entre a amizade, a confiança e o apoio geriátrico, todos tentam sinalizar a atenção de quem passa.

Importa salientar que a participação cívica não se esgota no momento em que depositamos o voto no nosso candidato de eleição.


O período de campanha leitoral é um momento fulcral para o debate, para a apresentação dos candidatos (e dos seus projectos), com vista ao esclarecimento dos eleitores.


Desvalorizar estes momentos é afastar, ainda mais, as pessoas dos políticos e, consequentemente, a perpetuação do aparente desinteresse de uns perante os outros.


Os políticos não se podem limitar ao contacto com as populações (apenas) nestes períodos. Assim como, os cidadãos não se podem desvincular de participar nos actos eleitorais, engrossando os números da abstenção, e delegando em terceiros a opção sobre decisões que irão afectar a sua vida quotidiana.


Quantas vezes já não ouvimos alguém reiterar (de forma displicente) que não se interessa pela política, de que os políticos são todos iguais e que não vai votar?


Este tipo de comportamentos deve ser condenado, mas não pode, nem deve ser negligenciado, carecendo de um profundo trabalho de esclarecimento sócio-cultural.


Por estes dias, o escrutínio da actividade pública (ou da gestão da coisa pública) está sujeito a uma malha muito apertada, sendo certo que o rigor e a transparência são factores determinantes na escolha dos eleitos.


Nesta medida, os candidatos devem privilegiar (de forma clara e inequívoca) a aclaração juntos dos eleitores, revelando aquilo que pretendem realizar ou corrigir.


Passar um cheque em branco a um candidato que apenas baliza a sua acção pela sua (in)capacidade de gerir, na vã tentativa de contentar tudo e todos, num exercício de procrastinação, num confrangedor falhanço da projecção da cidade (e do concelho) para os seus desafios de futuro (e que não se fixam apenas no turismo), não é opção.


Ponta Delgada anda à deriva há mais de duas décadas, o tempo assim o comprova.


No final de três mandatos cabeludos, cujo objectivo permitiu canibalizar os fundos europeus concelhios em investimentos de retorno duvidoso, os quais hipotecaram o destino presente e futuro da autarquia, numa gestão que apenas cumpriu os desideratos de um projecto pessoal, o actual inquilino da Praça do Município clama por confiança (!) na renovação da sua candidatura.


Mas que confiança podemos nós ter em alguém que renovou (quase) a 100% o elenco camarário que conduziu os destinos autárquicos de Ponta Delgada nos últimos quatro anos, não será esta a prova (maior) do seu falhanço como gestor autárquico?


E o que dizer da gestão do espaço público concelhio, relativamente: à recolha dos resíduos sólidos urbanos; na limpeza da cidade, em particular, no combate e controle na propagação de roedores; na circulação e estacionamento automóvel; no alargamento dos transportes públicos municipais ao perímetro suburbano; na ausência de planos de pormenor para a cidade e principais núcleos de freguesia do concelho; na fundamental revisão do PDM; e na falta de uma estratégia coerente quanto ao calendário de eventos e à agenda cultural do município.


Será possível realizar uma campanha eleitoral (autárquica) sem que haja a discussão de um programa (ou de, simplesmente, uma ideia)? Aparentemente, há quem acredite nisso.


Por tudo isto, e muito mais, Ponta Delgada merece melhor, merece uma equipa, e não apenas um só candidato. 


* Publicado na edição de 11/09/17 do AO
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terça-feira, 5 de setembro de 2017

(V)ir e voltar

Chegados ao início de Setembro, ao fim das férias e ao regresso às aulas, o momento é de balanço turístico após o mês mais quente do turismo nos Açores.

Durante o mês de Agosto podemos todos experienciar a profunda transformação gerada na(s) ilha(s), sendo simplista quem reduz o crescimento turístico apenas à liberalização do espaço aéreo.

Este facto significa que temos todos, sem excepção, de nos adaptar a esta nova condição, não vale a pena ignorá-lo. Exigindo, a cada um de nós, residentes, (in)evitáveis concessões ou simplesmente a (re)criação de novos hábitos, e rotinas, devido ao maior aglomerado de pessoas nos locais e espaços mais populares, sujeitos, neste período, a outra densidade e pressão.


É óbvio que, para quem nos visita, o destino seja pacato, sobretudo se for alguém oriundo de um grande centro urbano. São realidades distintas, onde qualquer comparação não tem razão de o ser.


Aliás, parece-me sempre obtuso querer comparar hábitos e vivências de realidades tão diferenciadas. O que temos para oferecer não é um modo equiparado desses destinos em formato reduzido mas, sim, algo completamente singular, distante e diferente, com um carácter sustentado, de um tempo mais distendido e em equilíbrio com o meio ambiente que o rodeia.


Não devemos fazer do Turismo a panaceia para todos os males mas não podemos escamotear a sua importância, nem minorar a dinâmica que o mesmo introduziu. Um caso concreto: não fosse o crescimento turístico presente, o centro histórico de Ponta Delgada continuaria decrépito e abandonado. Não tenhamos qualquer dúvida quanto a isto.


Ao contrário do que possam pensar, não faço a diabolização do turismo, considero que o mesmo apresenta novos desafios cujas soluções implicam, forçosamente, respostas mais imaginativas e criativas. No entanto, devemos aproveitar esta movida mais positiva para repensar e agir sobre um conjunto de problemas - habitação nos centros históricos, transportes públicos, animação turística, recolha do lixo, sinalética, acesso automóvel em zonas ambientalmente sensíveis, apenas para nomear alguns - que não têm tido a resposta adequada das entidades competentes.


Noutro âmbito, e a propósito de uma reportagem recente na RTP/Açores sobre um simulacro para avaliar as medidas de socorro nas zonas balneares (!), parece-me estranho que num período em que o número de turistas (famílias, incluídas) é muito superior ao que tínhamos no passado, a resposta dos meios disponíveis seja a mesma e, em alguns casos, menor ou mesmo inexistente.


Este é apenas um exemplo daquilo que, entre nós, não muda apesar de tudo o resto se ter alterado.


Em todo o arquipélago deparamo-nos com avisos de zonas balneares que não estão sob vigilância, o que representa um perigo, acrescido, para os banhistas. 


Acredito que não seja possível monitorizar todas as zonas balneares dos Açores mas já é tempo de olhar para os nadadores salvadores como um recurso permanente, profissional, e associado, por exemplo, à Proteção Civil.


De igual modo, não faz sentido que a limpeza das praias esteja circunscrita apenas à época balnear. 
Se queremos turismo de qualidade parte da equação passará pela manutenção contínua destes locais, por forma ao seu usufruto durante a maior parte do ano.

A tão propalada sustentabilidade futura - da denominada fileira do turismo - passa pelo regresso de muitos daqueles que agora nos visitam.


É preciso (v)ir mas é imperioso voltar.


* Publicado na edição de 04/09/17 do AO
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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mundividência(s)

Todos falámos, ninguém o ignora e os jornais fazem notícia com o assunto que está, inevitavelmente, presente em todas as mesas e convívios deste verão: o aumento exponencial de turistas na(s) ilha(s).

Um dos aspectos mais visíveis desta presença são os carros de aluguer com os seus dísticos no vidro traseiro, uns mais ostensivos do que outros, em que todos lutam pela conquista da cota alheia, como se estivéssemos perante uma guerra silenciosa.

Para fazer face à procura existente, as empresas de rent-a-car têm efectuado avultados investimentos e são as maiores responsáveis pelo crescimento das vendas de automóveis novos nos Açores.

Mas não tem sido apenas o número de veículos que tem aumentado, a cada dia que passa surge uma nova empresa de aluguer de automóveis, sendo que as grandes empresas do sector passaram a olhar os Açores com outra atenção.

O efeito directo desta acção empresarial por via da intensificação da actividade turística tem conduzido à melhoria substancial dos nossos indicadores económicos.

Contudo, depois de dois intensos verões, do aumento da chamada época alta para o período compreendido entre Abril e Outubro (antes estava concentrada entre Julho e Setembro), de um conjunto de outras evidências nos serviços disponibilizados, da restauração à animação turística, e de um número considerável de estudos e planos, continuamos sem agir de forma consistente, concertada e sustentável perante este enorme fluxo turístico.

A profusão de festivais, de concertos e de outras iniciativas, mais ou menos indiferenciadas, é, talvez, o exemplo mais flagrante do desnorte a que temos assistido.

Ano após ano, discute-se a importância da articulação de agendas e da necessidade imperiosa de delimitar, e regrar, o acesso a áreas ambientalmente sensíveis. Tal não tem acontecido e a situação deteriora-se a cada ano que passa.

Um exemplo destes dias, o Açoriano Oriental na sua edição de 25 de julho faz manchete com a seguinte chamada de capa: “Filas com mais de 200 metros para estacionar na Caldeira Velha”.

Esta não é uma situação nova, cuja resolução não passa, ao contrário do que é defendido, pelo aumento do estacionamento automóvel junto destes locais de interesse turístico.

Se, neste período, estes espaços já têm uma carga muito acima daquela que deviam ter, retirando a beleza e a tranquilidade pelas quais são conhecidos e são motivo de visita, aumentar o acesso (indiscriminado) automóvel é tornar ainda mais insuportável, e caótico, a experiência turística do destino que diz ser ambientalmente sustentável.

À semelhança do que já existe no ilhéu de Vila Franca do Campo, o acesso a determinados locais tem de ser controlado e pago. Os carros ficam à porta, em parques de estacionamento gratuito, longe de zonas de reserva ambiental, e devem ser gerados transportes alternativos para quem os queira visitar.

No final, é tudo uma questão de bom senso e de, eventualmente, mundividência.

Voltarei a este assunto no final de mais esta época estival, se entretanto vai andar por aí e se cruzar na estrada com um carro de aluguer, redobre os cuidados na condução, à vossa frente estará, muito provavelmente, um turista.


* Publicado na edição de 31/07/17 do AO
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